sexta-feira, 21 de julho de 2017

Satélite

20/07/2017

Depois de um tempo dormindo
é bom enfim acordar.
Olhar nos olhos do mundo,
sentir mais do meu desgosto com tudo,
me rebelar.
Difícil mesmo é não se revoltar.

Suportar o dia a dia...
Essa alucinação ainda estou para alcançar.
Tento diariamente respeitar a rua,
mas de dia o mar, de noite a Lua,
sempre vêm me chamar.

Queria que seus poderes fictícios
pudessem nos salvar.
Mas pairo como Bandeira a olhar as coisas em si:
satélite,
água,
fogo,
violência,
desigualdade.
Enforcado de mais valia,
o que me cansa é a fantasia
de que vai tudo muito bem.
Vai tudo mesmo muito mal.
Tudo.
E com um grito jamais contido,
volto para a rua.
Sob satélite ou estrela.
que meus poderes de homem comum
não iludam ser vivo nenhum:
só seguindo junto,
lutando,
incendiando,
revolucionando,
que alguma coisa vai mudar.

Quero ver o mundo diferente.
Talvez com mais cara de gente
-- gente que saiba amar.
Seja na lua nova ou lua cheia,
sentir a liberdade percorrer minha veia,
e, mesmo sem prática,
voltar a sonhar.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Salitre

02/02/2017

Das dores que se sente no fundo do peito
a pior é a distância.
Quando o afastamento é o único jeito,
minha garganta insiste em secar.
Quem pode, se afasta de você.
Menos o mar, que sempre me traz de volta.

A areia do meu corpo se refaz em pedra.
... que chora sem molhar.
Olha! O mundo sorri lá fora.
Só o mundo.
Sou um pequeno fragmento de nada.
Você está sendo a maior decepção da minha vida.
Nada pode decepcionar.
Sou uma represa de expectativas.
Prestes a romper.

Deságuo como nuvem que sou.
Não sou nada que já não tenha sido.
E já fui tantos que hoje nem sei.
Amanhã quem sabe?
Só a chuva fria
e a terra molhada
e minhas raízes cravadas
e meu tronco retorcido.
Fora de mim, nada.
Só o fogo que me corroi a seiva
conhece minhas flores.
Meus espinhos?
Causa de muitas dores.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Vivo-Não-Vivo

25/01/2017

Vivo mais de sonhos
que de realidade.
Se me alimentasse só de realidade,
já estaria há muito morto.

Conforto me falta,
mas estou vivo.
Quem me dera sonhar mais...!
Sonhar um sonho real.

Vivo, convivo com minhas mazelas.
Melhor sonâmbulo,
moribundo,
semi-morto.
Semi-vivo,
mas com todo conforto.

Pintura

25/01/2017

Reconhecer é viver.
É pintar as cores da vida
na tela metamórfica
que a natureza nos mostra.

Sabe mesmo quem
sabe sentir.
Sentir profundamente.
Cada corpo é
um macrocosmo
microscópico.
Um microcosmo
terráqueo.
Earthling.

Meus conhecimentos universais
não vêm de meus retiros espirituais.
Tenho gana em reconhecer-me.
Tesão em me sentir lá fora.
Lá fora-dentro.
Sempre.
Tenho ânsia de singular-me
na pluralidade afásica.

Em meus retiros espirituais,
suicídio.
Em meu encontro com a alteridade,
renascimento.
Ao reconhecer-me fora de mim,
reencontro.
Plenitude.
Pichação.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Temporal

20/01/2017

Se eu pudesse voltar ao passado,
nada faria diferente.
O que um dia já deu errado,
ou resultou positivamente,
se por acaso fosse alterado,
o que seria do meu futuro?

Longe de querer um lugar seguro,
tampouco quero um lugar caótico.
E, meu amigo, brincar com o tempo
é ficar no sereno ou se expor ao relento:
basta buscar o diagnóstico.

Sai do sereno, menino.
Sabe-se lá o que vai acontecer...
Se ao menos soubesse pintar,
e toda sua criatividade usar,
pintaria um mundo sem anoitecer.

Mas enquanto não tem essa sorte,
o horror dos passados vividos
pintará a tela dos futuros ecolhidos.
Viva o tempo presente e seja forte.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Mosca

27/10/2016

Hoje estou meio nebuloso.
A vida em carne viva
espanta os de estômago fraco.
Arco do fracasso numa íris.
Pupilas dilatadas e corpo em transe.
"Trago notícias do mundo que vem."
Eu não vou. Que horror!

Caído.
Costas ao chão.
Corpo ao céu.
Fisicatástrofe.
Se não morro, fico mais forte.
Se fico mais forte, luto mais.
Uma hora mato ou morro.
De desespero ou de dor.
Ou de solidão.

Levanto.
Lambo minhas feridas.
Pesco novas forças.
- esperança -
Alimento minha alma.
Minha alma.

Que as bruxas dominem esse mundo!,
pois o reino dos homens fracassou.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Quarto Crescente

10/09/2016

Eu tive um sonho.
Eu não era nada.
Não me percebia.
Não sentia meu corpo.
Não controlava meu corpo.
Porque aquele corpo não era meu.
Não era eu.

Mas sentia todo o resto.
Aquelas mãos que tocavam a grama
eram a grama.
Se prolongavam até as plantas.
Até o mar.
Até as nuvens.
Até as estrelas.
Eu era tudo.
E nada.

Me senti outros.
Me senti mulher.
Eu era mulher.
Uma mulher.
Um grande amor.
O maior que eu já tinha sentido.

Mas não era sonho.
Era vivência concreta.
Realidade.
Um chá de vida.
Foi tudo real.
E ainda é.
Nada mudou.