sexta-feira, 26 de junho de 2026

Arakoa

 26/06/2026
 
No início, Arakoa vivia sem ninguém por perto. Seu isolamento, no entanto, não trazia solidão. Longe disso: o mundo ao seu redor era vivo, complexo, repleto de animais, plantas, seres vivos de uma maneira geral. Menos humanos. Ainda assim, plantas e bichos guardavam uma distância adequada. Como um acordo não escrito; um contrato social ontológico, nascido da própria natureza. Marcado na carne, escrito com sangue e cravado nas rochas. Mas Arakoa não se importava. Bastava para si sua existência. Vivia para viver! Sou o que sou, porque sou, talvez dissesse. E era, em toda sua magnitude, uma demarcação da matéria; um rugido das entranhas do mundo.
 
Por vezes, o mundo era silencioso. Mas apenas aos ouvidos mal treinados. Ou ao espírito descansado. No fundo, porém, falava sem parar. Antes do verbo veio o adjetivo: vivo, sonoro. Furioso, mas também calmo, pacífico. O respirar das ondas pulsava como artérias. A cada batida, o compasso de um vai-e-vem sem fim. O som da eterna lavagem sempre acompanhado do cheiro característico daquelas águas. Pulsante. As folhas caídas na superfície dançavam ao ritmo incessante da orquestra marítima. Os sopros dominavam as sinfonias, sonatas e réquiens. O mundo tinha voz. 
 
Entre os trotes litúrgicos das feras e os farfalhos profanos das plantas, jazia todo o espectro latente da vida. O equilíbrio sutil das disputas selvagens dominava todo o espaço. A luta por sobrevivência bailava com os apoios mútuos. Mãos, patas, galhos, se entrelaçavam em guerra e paz. Amor e ódio. Sabor e ferida. Cada molécula que ali havia transitava entre formas e estados. Passava de um sistema digestório ao outro, visitando cada aspecto do ser-ou-não-ser. A questão da existência era diluída em suas fases, e os astros acompanhavam cada um delas.
 
Desse olhar cuidadoso nascia a pintura derradeira. As folhas respondiam à luz que recebiam. Apresentavam-se galantes no banquete diário. Vestidas não por terem sido requisitadas, mas por pura vontade. Como se desejassem falar “aqui estamos e a vós saudamos”. Belas como fruto da beleza solar. Fruto este entregue a quem soubesse coletar. Transformando o banquete recebido em novas refeições. Uma verdadeira comunhão eucarística, alegremente recebida por quem se apresentasse.
 
Presas e garras, por outro lado, também entravam na equação. Os cortes, rasgos, mordidas nada mais eram do que recortes da grande serpente que engolia a si mesma e vomitava logo em seguida. Cada átomo perdido se reencontrava alhures e se transformava. Cada casulo finalizado abria espaço para que novas asas pudessem bater. As células, que compunham os tecidos, eram apenas micro-demonstrações de macro-transformações. Cada uma dedicada a seu papel; cada qual firme em seu propósito - seja ele qual fosse. Os inúmeros olhos da noite pareciam saber aonde aquilo tudo iria chegar, mas nunca se dignaram a explicar. Na selva, a educação é um esforço coletivo. Astros, minérios, plantas, animais, fungos, bactérias: cada um carregando parte das respostas, disponíveis a quem soubesse perguntar.
 
E Arakoa permanecia por ali. Espreitando, ruminando rochas e fogo. Perto, porém distante. Ao alcance de membros esticados que se retraíam. Ora em paz fumegante, ora em furor resplandecente, mas sempre ali, ocupando seu lugar de direito; atuando de acordo com seu papel no grande teatro universal. Seu bafo quente falava mais do que qualquer intérprete poderia traduzir. Seu corpo alcançava além dos limites de qualquer olhar.
 
Sentia certa reverência de seres e não-seres ao seu redor. Tamanha potência lhe garantia também prestígio. Não havia nada que permanecesse naquelas terras e mares sem que reverenciasse Arakoa. Sem respeitar sua imensidão. Os cultos afásicos modelavam sua senciência e eram modelados por ela. Sua boca aberta recebia - e engolia - todos que ousassem invadir seu terreno. Seu calor queimava quem tentasse pisar em sua pele. Quem julgasse capaz de enfrentar sua ira sucumbia à eterna escuridão, se tornando parte do que buscava explorar. Meras células anexadas a um novo corpo.
 
Seu temperamento, no entanto, era sensível. Firme, mas nunca cruel. Engolia apenas o que era de sua própria natureza. Invadia apenas o que estava a seu alcance. Dominava somente o que era parte de seu domínio. Não tinha como ser diferente do que era. Não queria ser diferente do que era. Era o que era porque era. E assim permanecia.
 
Nem sempre estava em atividade, no entanto. Arakoa também precisava descansar. De tempos em tempos, tirava para si um momento para hibernar; o sono dos justos era direito de todos. E foi assim que, por eras, sua voz não foi ouvida. Iniciou-se um sono profundo, depois de tanto trabalho, de tanta metamorfose. Era o momento de descansar.
 
*****
 
Por muito tempo, Arakoa permaneceu só. Sua única companhia se mantinha distante. Às vezes mais próxima, mas sempre receosa. Pouca coisa mudou entre seu tempo desperto e seu sonho. O ritmo das ondas continuava; o brilho dos astros permanecia; o ciclo da vida se mantinha. Mas nada permanece igual para sempre. O destino sempre preparava novas surpresas aos vivos.
 
Foi assim que tudo mudou. Como se parte de uma brincadeira fatídica, os humanos vieram não se sabe de onde. Primeiro tímidos, descortinando o palco sob seus pés. Pintando o solo com suas pegadas, teimavam em deixar vestígios de sua passagem pelo caminho. Suas mãos, como cinzeis, esculpiam o mundo à sua volta, talhando seus desejos em troncos e em trancos. Nada seria como antes. Mais uma mudança nas curvas das linhas do tempo.
 
Não se sabe por que vieram. Talvez atraídos por Arakoa, mesmo sem nunca terem sido chamados. Invasivos. Invasores. Hóspedes em uma terra onde ainda não eram bem-vindos. Ocupantes de um solo que não beijava seus pés. Ainda assim, vieram e se alojaram. Tomaram para si um corpo que não era seu. Vestiam sobre sua própria pele o tecido que aquela terra e seus habitantes forneciam. Mastigavam carnes que outrora eram disputadas por outros seres. Regozijavam-se com seus banquetes rubros como vampiros diurnos. Sedentos de uma sede infinda. Vieram e permaneceram.
 
Arakoa, por sua vez, permanecia em seu sonho eterno. Não se sabe se percebeu a chegada dos novos seres, ou se apenas não se importava. Seu ser quente ainda pulsava, bufava, dormia. Sonhava, talvez, com mundos além da compreensão de seres tão pequenos. Vagava pelos reinos do sonhar com asas e caudas flamejantes. Esfriava, condensava suas entranhas em ferro frio, evaporava em nuvens verde-mar e findava em cinzas. Jorrava suas vísceras em terras ultramarinas em uma história-sem-fim - nem começo.
 
No mundo sensível, no entanto, a humanidade se espalhava. Dominando o espaço ao redor, se apresentavam como um cume na pirâmide da vida. Rasgavam, com seus dentes, a carne dos seus então conterrâneos. Lambiam os beiços com o tesão primordial de um predador alfa. Tomavam tudo e todos para si. Deuses em um mundo que existia para lhes servir.
 
E então viram Arakoa. Em seu silêncio majestoso, uma aura seduzia aqueles deuses. O que era aquilo? Que boca grande tinha. Que suspiros potentes, odorosos, fantásticos. Que crosta firme, energizada, solene. Aos poucos se viram cativados, quase hipnotizados. Em transe, entoavam cânticos de força e poder. Riso e maldição. Tinham visões de um futuro celestial como senhores absolutos de toda aquela terra.
 
Começaram a visitar Arakoa, como uma fera no zoológico, presente apenas para que eles pudessem se deleitar. Sua beleza exposta na vitrine. Gratuita, sublime. Desnuda para olhos que não podiam acompanhar seu esplendor. Tomavam suas terras para si, como meros terrenos a serem ocupados. Lotes de terra onde podiam erguer suas residências. Mas esqueciam de um fato importante: aquele zoológico não tinha grades. Aquela fera não podia ser contida, embora adormecida. Afinal, sabiam do seu sonho? Contavam com seu despertar? Sabiam o que o futuro lhes reservava?
 
E, como poderíamos esperar, Arakoa despertou. Sem avisos prévios. Sem comunicação aos senhores-seus-donos. Sem licença. O bocejo da fera não enjaulada espalhou-se pelos ares. Os movimentos de seu corpo recém desperto estremeceram a terra, como o arrepio de um gigante. Os bichos, que ali viviam há gerações, já sabiam o que viria antes mesmo de qualquer sinal, e fugiram. Uma maratona de animais selvagens se iniciou. Uma disputa não pela vitória, mas pela própria vida. Não uns contra os outros, mas cada um contra si mesmo; contra seus limites físicos e mentais. Contra Arakoa. Outros seres vivos e não-vivos aguardavam seu destino de forma estática. Resignados, preparados para a sina que o universo lhes apresentava. Prontos para cumprir seu papel naquele palco. Cientes de seu fim para um novo começo.
 
Arakoa, no entanto, ainda iniciava seu retorno. Ensaiava a demonstração de seu poder, de seu labor. Ao ver-se sob outros seres, no entanto uma fúria nunca antes apresentada se instalou em seu coração. Quem eram aqueles minúsculos bichos, e por que se sentiam no direito de pisar-lhe. Que insetos ousavam sugar seu sangue? Pouco importava. Sua saliva logo tomaria a todos, sem exceção. A verdadeira isonomia jazia em sua bocarra, que tudo consumia. Que tudo consumiria.
 
E consumiu. Devorou. Expandiu-se como nunca antes. Atravessou terrenos ainda inexplorados por suas pernas. Transformou o mundo em fogo e cinzas. Quantos quilômetros teria percorrido? Quais ferramentas seriam capazes de medir tamanha expansão? Seu domínio, então, duplicou. Triplicou, talvez? Multiplicou. Tudo que se pôs em seu caminho foi consumido. Tornou-se parte de seu ser. Apaziguado por sua fúria. Tomado por suas mãos vorazes, suspiro a suspiro, a cada batida de seu coração. Tudo era seu corpo encarnado.
 
Novamente solidão. Seus vizinhos cada vez mais distantes - os que não foram devorados. Mais respeitosos, ou amedrontados, como deveriam ficar diante de Arakoa. Medo, respeito, veneração. Que produzissem suas preces e rituais, pois Arakoa não merecia menos do que isso.
 
Mas Arakoa havia se acostumado com o descanso. Ansiava pelo gozo do sonho, pelo reino onde não passava de apenas mais um transeunte. Mais um minúsculo ser em um mar de ideias, de mundos, visões, ilusões. Sua fúria aos poucos se converteu em paz. Sossego solitário que sucede o trabalho. Tempos incalculáveis se passaram enquanto suas pálpebras se fechavam. Enquanto seu corpo retornava à inanição.
 
E então, eles voltaram. Os bichos, as plantas, e, por fim, os humanos. O terreno que Arakoa tomara para si foi tomado de volta. Seu domínio revertido a zoológico. Seu corpo, a terreno a ser ocupado. Sua fúria não parecia mais demonstrar o que outrora era capaz. O mundo se descortinava como uma saudação ao final de uma apresentação. Seu epílogo, um prólogo de uma história onde seria coadjuvante. Nada seria como antes. 

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Maremoto

26/06/2025
 
As brisas em meus ventos uivantes
são sempre cortantes.
Facas que cortam minha carne;
arrancam minha pele.
Os pulmões incendeiam,
mas nada me fere.
Nada me fere!
 
Caio sem rumo num mundo
que me engole.
Pois que engasgue!
Sou fuligem;
fumaça num verso esnobe.
Cascalho solto na rua a ninguém comove.
 
São tosses amargas de um tísico,
ou alguém largada à própria sorte?
A pá que me enterra
não tem um corpo físico;
não me tem em seu foco.
Não há vulcão em minha terra;
só maremoto.
 
Contra gases tóxicos
um corpo forte.
Um organismo coletivo 
repleto de corpos e anticorpos.
Revolta,
solidariedade,
união.
Em minha terra não há vulcão;
só mar remoto. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Sangue e Chamas

04/10/2024

As linhas cortadas de minha mão

sangram,  transbordam minha pele.
Meu peito, essa pavorosa prisão,
pulsa com o brilho que em vão me fere.

Que se encerre a distração!
Meu corpo, um sufoco; um lastro
de angústia, astúcia, sofreguidão.
O sangue me ferve, mas o corpo é vasto;
tem muito espaço para cada sensação.

As mãos no pescoço, uma convulsão.
Os punhos serram quando os dentes rangem.
As línguas ácidas me consomem,
e os pensamentos, como intromissão,
me leem. Seja qual for a conclusão,
os vestígios de paciência somem.

Ora, já chega, pois estou cansado.
O risco de sumir
só escapa na explosão.
Chega de ser fogo.
Agora sou vulcão.
E democracia, meu amigo,
não é imposição. 

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Next time, fuckers

(14/08/2023)


Me confundiam com incendiário.

Mas minhas faíscas só serviam ao sangue.

Borbulhado,

meu corpo permanecia perfurado

pelo ferro em minhas veias.

A cadeia de sulfato

me inundava a glote.

e eu chovia por dentro.


Me encantavam as cinzas.

Os veios de minhas entranhas

sucumbiam ao deslizamento litiar.

Os ventos assassinavam a métrica

desértica de minha geografia ocular.


E então veio o verbo.

No surto, o resquício do sumiço

volta a se encontrar.

O destino, sovino,

encarna as fibras do corrediço.

E a carne começa a oxidar.


Carbonizado,

o verso se converte em fuligem.

A virtude, em vertigem.

E o vasto vazio começa a desmoronar.

O gosto lúgubre, o olfato incerto

e o terror incólume:

vestígios de precessão no incêndio.

Não sou filho do amoníaco,

mas talvez seja do arsênico.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Arma-me

30/11/2022


Saca-me

Sarra o torso torpe

Torce

Agarra o cabo

Carrega o fardo

Move


Explora a sorte

O calor contaminado

Juízo alado

Pequena morte


Arfa-me

Suga-me o ar

O sangue

O jorro

O fogo-a-jato

O laço

Apaga-me


Afaga-me

Afoga-me

Em seu carinho

Roda mundo

Rodamoinho

Sem solução


No vasto mundo

Soluço

Inundado

Afogado

Resfolegado

Boiando no mar

Chegando a hora de zarpar

Sem anos de solidão

sábado, 3 de setembro de 2022

Amiúde

03/09/2022


Suspiros de noite e de dia.

Olhos abertos, despertos na fantasia

de sentir e ser.

Por dentro, a chama incessante

que só faz crescer.

Por fora, montanhas galgáveis,

cavalgáveis, para subir e descer.


Um rio escorrendo apresenta o caminho.

Nadar e ser embebido, dissolvido

na cachoeira do prazer.

Perder-se no escuro e perder os sentidos,

ouvindo só o que a alma tem a dizer.


Efervescer o ser e sublimar.

Dormir desperto e sonhar

com o mundo caindo de suas beiras.

E quando o corpo todo falhar,

deixar a mente subir às estrelas.

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Sono sem Sonho

20/07/2022

 

A força do dia a dia

camufla as cores do mundo.

Sentado em meu canto sozinho,

cansado, observo tudo

com meu olhar daltônico.


Um sono sem sonho

é como estar acordado.

Os olhos ardidos,

a boca seca,

a faca cega.

Sossega esse peito, menino.


Colírio.

Lavar a alma com lágrimas

e terra.

Pé no chão, corpo nas nuvens.

Delírio.

Nós que desenrolam(os) em fios

cortantes.

Mente amolada,

faca.

Sede de fazer o sangue ferver.

Já posso voltar a sonhar,

mas sem esquecer de viver.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Nanopotente

27/04/2022

 

Em meus sonhos posso voar.

Que alegria seria

se em realidade ou fantasia

fizesse o que posso, ao sonhar.


Mas meu corpo vive no mundo real;

sem asas,

sem forças,

sem mãos a me levantar.

Minipotente.

Descrente no fututo

aonde vamos chegar.


Enquanto o sertão não virar mar,

um deserto cinzento é meu chão.

Caminho, sob o sol escaldante,

mirando uma miragem

deveras distante,

mas sem sombras de satisfação.


Esta ilha me devora.

Sendo o futuro incerto,

procuro me manter desperto

à procura de uma aurora.

... mas que demora!

Agora, só resta olhar à frente

- micropotente -

porque atrás vem gente

e não há tempo a perder.


Sou o que sou,

mas quem sou eu de fato?

Sem digitais, sem tato,

esqueço o que sei de mim.

Afinal, o que tenho a dizer?

Nesse mundo não sei voar,

e, enquanto não puder sonhar,

só me resta viver.

sábado, 29 de maio de 2021

A Montanha

 29/05/2021

 

As pernas enrijecidas a cada passo
e os pés esfolados no percalço
das pedras no caminho.
Sigo sozinho, mas temente
ao destino que se descortina
em minha mente.

Os rios de minhas veias abertas,
discretas, se confundem
com sudorese.
Tudo para responder à tese
de que sou aquilo que meus olhos
difundem.

Braços já não tenho mais,
mas amplio meu corpo
num gesto costumaz
que há tanto me aflige.
Todo dia, toda hora,
sob os olhos da esfinge,
em seu olhar torto.

Repleto de desgosto
e introspecção,
meus olhos se voltam ao chão
e meus pés se preparam para a
descida.
A boca fechada, contida,
pedindo aos céus
que meus joelhos aguentem.
Pois, apesar de tudo que meus poros sentem,
amanhã começa uma nova subida.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Ciclo Hídrico

28/11/2019

Toda tarde chuvosa me reinvento.
As gotas que caem lá fora
me penetram.
Infiltrado, minhas correntezas internas
me levam aonde querem;
aonde meu leme não permite ir.

Irrigado, me afundo em mim.
Me afogo no mar de minhas entranhas
e sou devolvido a minhas areias;
a meu corpo granulado pela chuva.

Chuva!, domina minhas veias,
para eu não ser mais do que água.
Água em movimento.
Dissolve meu veneno e faz de mim
aquário.
Ecossistema de sentimento.
Lava meu peito direito,
pois sei que quando se for,
volto a ser leito.
E se agora sou rio, nascente e foz,
sem chuva meus laços viram nós
e retorno ao fogo de que sou feito.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Harmonia

23/10/2019

Sinto mais do que cabe em mim,
pois ouço, em seu vai e vem cortante,
um sussurro deveras distante
de minha ânsia em permanecer assim
como sou: não mais do que estou,
não menos do que eu fui,
de onde vim, pra onde vou.

Seu silêncio, em meu peito escancarado,
ressoa.
Minha carne, aberta em ferida,
carne viva,
entoa em meu ser, que se desfaz.
E sua cor, que em mim se esvai,
é um aviso a minhas ondas:
encarne!, pois há, no fundo, uma parte boa
em seu devir.
E, enquanto outros são ilha,
seu sentir te faz lagoa.

Ouso ser concreto, mas não me basta.
Preciso de pele no mato;
me abastecer de maresia,
sufocar na sinfonia
do mundo concreto de fato.
Se cada dia nasço, morro e mato,
me mato sempre que não sinto o chão,
não vejo o céu.
Me escondo sob o véu abstrato do sal.
Derreto ao sol, escorro na chuva,
e o vento sem curva me turva.
Engessado não sou;
concreto não vim;
dourado não vou.
Tudo flui;
muito estou;
nada sou.

domingo, 30 de junho de 2019

Haiku 5

30/06/2019
في صحراء وغابة
تحت نور الشمس
هناك زهوري

no deserto e na floresta
sob a luz do sol
lá estão minhas flores 

Grande Explosão

30/06/2019

tudo começa, tudo termina
e tu quer ser eterno
de verde e amarelo
feche os olhos, meta a bomba
que eu sou seu inferno
não uso seu terno

pixo meus olhos pra ver
fecho a boca pra comer
meu corpo tá vivo
mesmo desmentido
não sou consumido por você
pelo seu critério
mesmo deletério
sigo vivendo, sorrindo e sofrendo
e tu se faz de sério

séria é a bomba que eu trago em meu peito
sorriso esfolado, discurso cansado
eu não sou perfeito
mas sigo no mundo, vivendo e morrendo
esse é o meu jeito
vivendo e morrendo
esse é o meu jeito

então se prepara pra cair
quero te ver quando eu explodir
não aondo sonho
tem no meu caminho
contração e expansão
concentração e explosão
ferro e fogo
cego socorro
mato e morro
eu sou seu velório
parece simplório
num mundo ilusório
tudo que eu digo parece simplório
cansei desse mundo
que merda de mundo
meu peito palpita
um desgosto profundo
fim
recomeçou tudo

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Horizonte de Eventos

10/04/2019

Isento de sentidos para me expressar,
sigo sozinho.
Sem sentido para minha luz
sem caminho.
Sou quente ou frio?
Destoo do meu ser, pois sou.
Mais do que sei que sou.
Assim será.

Em meu veu que sou eu mesmo,
engulo o que me tocar.
Não me vejo, pois não te vejo,
e aqui não adianta falar.
Basta contemplar,
sem sentido para a minha luz,
sem caminho.
O mundo começa do lado de lá.
Aqui, se não for pra sonhar,
deixa estar.
Porque ser é demais.

Sou mais do que meu tamanho pode indicar.
Busque os indícios de minha prisão,
se quiser me encontrar.
Distante do verso do seu olhar,
sou diverso.
Avesso aos sentidos
que pecam em me enxergar.
No fundo de mim
há mais do que sonha encontrar.

Mas cuidado ao se aproximar.
Sou um vórtice de tudo em mim,
e se você for chegando assim,
vai se perder e não mais se achar.
Melhor ficar assim:
distante.
Serei apenas um evento
em seu horizonte.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

terça-feira, 12 de junho de 2018

Essência e Evanescência

11/06/2018

Mergulhado nos rios que percorrem minhas veias,
dissolvo minha mente por completo
e me torno fragmentos de mim mesmo.
Minúsculos grãos de mim
desaparecem em minhas águas
e completo minha metamorfose
como um grande fluido de eu em mim.
E minha correnteza vermelha
trafega por entre os obstáculos do caminho.

Sigo acompanhado de meu eu dissolvido
e de meu único desejo:
desejo de aflorar.
Aflorar.
Para que meus odores viajem livres pelos ares
e se confundam com os odores do mundo.
Que gostoso seria se minhas cores
alegrassem meus arredores..
Se minhas raízes não me prendessem ao solo,
mas me dessem firmeza
para que as pétalas pudessem vagar.
Pétalas vadias policromáticas.
Queria que abelhas me procurassem,
para que germinassem outras de mim,
que não seriam eu.

Mas sou rio.
Fluir é o cerne de meu ser.
E o desejo que eu posso ter
é que no meu trajeto ao mar
eu possa inspirar quem quiser sonhar
e que os outros venham a mim ao menos para beber.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Palavra É Existência

29/03/2018
A Gabriela de Assis Costa Moreira

Um dia vivi um mundo que já sonhei.
Tudo se repetia:
os olhos,
as falas,
o tempo.
Palavra é existência.
Sonho também.
E entrei naquele mundo que não era meu
(e era meu também)
e fui muito mais do que apenas sou.
Inundado em uma existência revivida,
chorei.
Materializei a palavra não falada.
Sonhei com campos,
irmãos
e histórias.

Conheci quem eu sempre quis ser.
Da Namíbia, o Sol brilhou em mim.
E eu sorri.
Enfim, sorri.
Me senti Zumira.
Aurora é o tempo.
E é minha mãe.
E é o tempo
que chega para todo mundo.

Aquele sonho acabou,
mas vieram outros depois.
Um outro dia,
disse,
serei leoa.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Vida, Morte, Renascimento

(07/03/2018)

Outro dia sonhei um sonho real.
Um pesadelo que não sai de mim.
(Ou eu não saio do mundo dos sonhos?)
Suponho
-- mas não sei de nada mesmo --
que sou na verdade um sonho.
Preso no cinza do concreto.
Tão discreto que mal me reconheço real.

Já sonhei ser um peixe.
Mas hoje sou cogumelo.
Quando morrer, o que serei?
Cinzas do mundo em chamas
se espalham sobre meu chapeu.
Me selo com o espectro reluzente do mundo.
Calo minha voz rouca
ante ao som desgastante das máquinas.
Não quero ser máquina.
NÃO QUERO SER MÁQUINA!

Espalho meus esporos pelo mundo
enquanto ainda tenho forças ao anoitecer.
A vida me sufoca, mas sou sonho que não entorta.
Sou linha torta.
Flor que nasce no concreto cinza.
Energia que emana do Sol amarelo.
Cogumelo.
Vida, morte, renascimento.
Lembro disso a todo momento.
Sonho vivo, torto, belo.
Cogumelo.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Bandazo

14/09/2017

Las gracias de la vida:
no las podemos ver más.
En nuestro cuerpo gran herida
nutrida por la maldad
de lo que llamamos humanidad.

Las árboles y el mar,
más que hombres y mujeres,
tienen mucho que hablar.
Solo es necesario escuchar.
Escuchar de verdad.

Aunque la vida sea bela,
la muerte nos rodea.
El sufrimiento de hoy,
el dolor de ayer,
los compartimos con la naturaleza.
Pero no basta oír.
No basta mirar parado.
¡Que vuelvan al suelo!,
porque nadie hará nuestro trabajo
y no hay ayuda en el cielo.

Si no nos gusta lo que vemos,
¡cambiemos!

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Satélite

20/07/2017

Depois de um tempo dormindo
é bom enfim acordar.
Olhar nos olhos do mundo,
sentir mais do meu desgosto com tudo,
me rebelar.
Difícil mesmo é não se revoltar.

Suportar o dia a dia...
Essa alucinação ainda estou para alcançar.
Tento diariamente respeitar a rua,
mas de dia o mar, de noite a Lua,
sempre vêm me chamar.

Queria que seus poderes fictícios
pudessem nos salvar.
Mas pairo como Bandeira a olhar as coisas em si:
satélite,
água,
fogo,
violência,
desigualdade.
Enforcado de mais valia,
o que me cansa é a fantasia
de que vai tudo muito bem.
Vai tudo mesmo muito mal.
Tudo.
E com um grito jamais contido,
volto para a rua.
Sob satélite ou estrela.
que meus poderes de homem comum
não iludam ser vivo nenhum:
só seguindo junto,
lutando,
incendiando,
revolucionando,
que alguma coisa vai mudar.

Quero ver o mundo diferente.
Talvez com mais cara de gente
-- gente que saiba amar.
Seja na lua nova ou lua cheia,
sentir a liberdade percorrer minha veia,
e, mesmo sem prática,
voltar a sonhar.