sexta-feira, 26 de junho de 2026
Arakoa
sexta-feira, 27 de junho de 2025
Maremoto
sexta-feira, 4 de outubro de 2024
Sangue e Chamas
sangram, transbordam minha pele.
Meu peito, essa pavorosa prisão,
pulsa com o brilho que em vão me fere.
Que se encerre a distração!
Meu corpo, um sufoco; um lastro
de angústia, astúcia, sofreguidão.
O sangue me ferve, mas o corpo é vasto;
tem muito espaço para cada sensação.
As mãos no pescoço, uma convulsão.
Os punhos serram quando os dentes rangem.
As línguas ácidas me consomem,
e os pensamentos, como intromissão,
me leem. Seja qual for a conclusão,
os vestígios de paciência somem.
Ora, já chega, pois estou cansado.
O risco de sumir
só escapa na explosão.
Chega de ser fogo.
Agora sou vulcão.
E democracia, meu amigo,
segunda-feira, 14 de agosto de 2023
Next time, fuckers
(14/08/2023)
Me confundiam com incendiário.
Mas minhas faíscas só serviam ao sangue.
Borbulhado,
meu corpo permanecia perfurado
pelo ferro em minhas veias.
A cadeia de sulfato
me inundava a glote.
e eu chovia por dentro.
Me encantavam as cinzas.
Os veios de minhas entranhas
sucumbiam ao deslizamento litiar.
Os ventos assassinavam a métrica
desértica de minha geografia ocular.
E então veio o verbo.
No surto, o resquício do sumiço
volta a se encontrar.
O destino, sovino,
encarna as fibras do corrediço.
E a carne começa a oxidar.
Carbonizado,
o verso se converte em fuligem.
A virtude, em vertigem.
E o vasto vazio começa a desmoronar.
O gosto lúgubre, o olfato incerto
e o terror incólume:
vestígios de precessão no incêndio.
Não sou filho do amoníaco,
mas talvez seja do arsênico.
quarta-feira, 30 de novembro de 2022
Arma-me
30/11/2022
Saca-me
Sarra o torso torpe
Torce
Agarra o cabo
Carrega o fardo
Move
Explora a sorte
O calor contaminado
Juízo alado
Pequena morte
Arfa-me
Suga-me o ar
O sangue
O jorro
O fogo-a-jato
O laço
Apaga-me
Afaga-me
Afoga-me
Em seu carinho
Roda mundo
Rodamoinho
Sem solução
No vasto mundo
Soluço
Inundado
Afogado
Resfolegado
Boiando no mar
Chegando a hora de zarpar
Sem anos de solidão
sábado, 3 de setembro de 2022
Amiúde
03/09/2022
Suspiros de noite e de dia.
Olhos abertos, despertos na fantasia
de sentir e ser.
Por dentro, a chama incessante
que só faz crescer.
Por fora, montanhas galgáveis,
cavalgáveis, para subir e descer.
Um rio escorrendo apresenta o caminho.
Nadar e ser embebido, dissolvido
na cachoeira do prazer.
Perder-se no escuro e perder os sentidos,
ouvindo só o que a alma tem a dizer.
Efervescer o ser e sublimar.
Dormir desperto e sonhar
com o mundo caindo de suas beiras.
E quando o corpo todo falhar,
deixar a mente subir às estrelas.
quarta-feira, 20 de julho de 2022
Sono sem Sonho
20/07/2022
A força do dia a dia
camufla as cores do mundo.
Sentado em meu canto sozinho,
cansado, observo tudo
com meu olhar daltônico.
Um sono sem sonho
é como estar acordado.
Os olhos ardidos,
a boca seca,
a faca cega.
Sossega esse peito, menino.
Colírio.
Lavar a alma com lágrimas
e terra.
Pé no chão, corpo nas nuvens.
Delírio.
Nós que desenrolam(os) em fios
cortantes.
Mente amolada,
faca.
Sede de fazer o sangue ferver.
Já posso voltar a sonhar,
mas sem esquecer de viver.
quarta-feira, 27 de abril de 2022
Nanopotente
27/04/2022
Em meus sonhos posso voar.
Que alegria seria
se em realidade ou fantasia
fizesse o que posso, ao sonhar.
Mas meu corpo vive no mundo real;
sem asas,
sem forças,
sem mãos a me levantar.
Minipotente.
Descrente no fututo
aonde vamos chegar.
Enquanto o sertão não virar mar,
um deserto cinzento é meu chão.
Caminho, sob o sol escaldante,
mirando uma miragem
deveras distante,
mas sem sombras de satisfação.
Esta ilha me devora.
Sendo o futuro incerto,
procuro me manter desperto
à procura de uma aurora.
... mas que demora!
Agora, só resta olhar à frente
- micropotente -
porque atrás vem gente
e não há tempo a perder.
Sou o que sou,
mas quem sou eu de fato?
Sem digitais, sem tato,
esqueço o que sei de mim.
Afinal, o que tenho a dizer?
Nesse mundo não sei voar,
e, enquanto não puder sonhar,
só me resta viver.
sábado, 29 de maio de 2021
A Montanha
29/05/2021
As pernas enrijecidas a cada passo
e os pés esfolados no percalço
das pedras no caminho.
Sigo sozinho, mas temente
ao destino que se descortina
discretas, se confundem
com sudorese.
Tudo para responder à tese
de que sou aquilo que meus olhos
mas amplio meu corpo
num gesto costumaz
que há tanto me aflige.
Todo dia, toda hora,
sob os olhos da esfinge,
e introspecção,
meus olhos se voltam ao chão
e meus pés se preparam para a
descida.
A boca fechada, contida,
pedindo aos céus
que meus joelhos aguentem.
Pois, apesar de tudo que meus poros sentem,
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
Ciclo Hídrico
Toda tarde chuvosa me reinvento.
As gotas que caem lá fora
me penetram.
Infiltrado, minhas correntezas internas
me levam aonde querem;
aonde meu leme não permite ir.
Irrigado, me afundo em mim.
Me afogo no mar de minhas entranhas
e sou devolvido a minhas areias;
a meu corpo granulado pela chuva.
Chuva!, domina minhas veias,
para eu não ser mais do que água.
Água em movimento.
Dissolve meu veneno e faz de mim
aquário.
Ecossistema de sentimento.
Lava meu peito direito,
pois sei que quando se for,
volto a ser leito.
E se agora sou rio, nascente e foz,
sem chuva meus laços viram nós
e retorno ao fogo de que sou feito.
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Harmonia
Sinto mais do que cabe em mim,
pois ouço, em seu vai e vem cortante,
um sussurro deveras distante
de minha ânsia em permanecer assim
como sou: não mais do que estou,
não menos do que eu fui,
de onde vim, pra onde vou.
Seu silêncio, em meu peito escancarado,
ressoa.
Minha carne, aberta em ferida,
carne viva,
entoa em meu ser, que se desfaz.
E sua cor, que em mim se esvai,
é um aviso a minhas ondas:
encarne!, pois há, no fundo, uma parte boa
em seu devir.
E, enquanto outros são ilha,
seu sentir te faz lagoa.
Ouso ser concreto, mas não me basta.
Preciso de pele no mato;
me abastecer de maresia,
sufocar na sinfonia
do mundo concreto de fato.
Se cada dia nasço, morro e mato,
me mato sempre que não sinto o chão,
não vejo o céu.
Me escondo sob o véu abstrato do sal.
Derreto ao sol, escorro na chuva,
e o vento sem curva me turva.
Engessado não sou;
concreto não vim;
dourado não vou.
Tudo flui;
muito estou;
nada sou.
domingo, 30 de junho de 2019
Haiku 5
Grande Explosão
tudo começa, tudo termina
e tu quer ser eterno
de verde e amarelo
feche os olhos, meta a bomba
que eu sou seu inferno
não uso seu terno
pixo meus olhos pra ver
fecho a boca pra comer
meu corpo tá vivo
mesmo desmentido
não sou consumido por você
pelo seu critério
mesmo deletério
sigo vivendo, sorrindo e sofrendo
e tu se faz de sério
séria é a bomba que eu trago em meu peito
sorriso esfolado, discurso cansado
eu não sou perfeito
mas sigo no mundo, vivendo e morrendo
esse é o meu jeito
vivendo e morrendo
esse é o meu jeito
então se prepara pra cair
quero te ver quando eu explodir
não aondo sonho
tem no meu caminho
contração e expansão
concentração e explosão
ferro e fogo
cego socorro
mato e morro
eu sou seu velório
parece simplório
num mundo ilusório
tudo que eu digo parece simplório
cansei desse mundo
que merda de mundo
meu peito palpita
um desgosto profundo
fim
recomeçou tudo
quarta-feira, 10 de abril de 2019
Horizonte de Eventos
Isento de sentidos para me expressar,
sigo sozinho.
Sem sentido para minha luz
sem caminho.
Sou quente ou frio?
Destoo do meu ser, pois sou.
Mais do que sei que sou.
Assim será.
Em meu veu que sou eu mesmo,
engulo o que me tocar.
Não me vejo, pois não te vejo,
e aqui não adianta falar.
Basta contemplar,
sem sentido para a minha luz,
sem caminho.
O mundo começa do lado de lá.
Aqui, se não for pra sonhar,
deixa estar.
Porque ser é demais.
Sou mais do que meu tamanho pode indicar.
Busque os indícios de minha prisão,
se quiser me encontrar.
Distante do verso do seu olhar,
sou diverso.
Avesso aos sentidos
que pecam em me enxergar.
No fundo de mim
há mais do que sonha encontrar.
Mas cuidado ao se aproximar.
Sou um vórtice de tudo em mim,
e se você for chegando assim,
vai se perder e não mais se achar.
Melhor ficar assim:
distante.
Serei apenas um evento
em seu horizonte.
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
terça-feira, 12 de junho de 2018
Essência e Evanescência
Mergulhado nos rios que percorrem minhas veias,
dissolvo minha mente por completo
e me torno fragmentos de mim mesmo.
Minúsculos grãos de mim
desaparecem em minhas águas
e completo minha metamorfose
como um grande fluido de eu em mim.
E minha correnteza vermelha
trafega por entre os obstáculos do caminho.
Sigo acompanhado de meu eu dissolvido
e de meu único desejo:
desejo de aflorar.
Aflorar.
Para que meus odores viajem livres pelos ares
e se confundam com os odores do mundo.
Que gostoso seria se minhas cores
alegrassem meus arredores..
Se minhas raízes não me prendessem ao solo,
mas me dessem firmeza
para que as pétalas pudessem vagar.
Pétalas vadias policromáticas.
Queria que abelhas me procurassem,
para que germinassem outras de mim,
que não seriam eu.
Mas sou rio.
Fluir é o cerne de meu ser.
E o desejo que eu posso ter
é que no meu trajeto ao mar
eu possa inspirar quem quiser sonhar
e que os outros venham a mim ao menos para beber.
quinta-feira, 29 de março de 2018
Palavra É Existência
Um dia vivi um mundo que já sonhei.
Tudo se repetia:
os olhos,
as falas,
o tempo.
Palavra é existência.
Sonho também.
E entrei naquele mundo que não era meu
(e era meu também)
e fui muito mais do que apenas sou.
Inundado em uma existência revivida,
chorei.
Materializei a palavra não falada.
Sonhei com campos,
irmãos
e histórias.
Conheci quem eu sempre quis ser.
Da Namíbia, o Sol brilhou em mim.
E eu sorri.
Enfim, sorri.
Me senti Zumira.
Aurora é o tempo.
E é minha mãe.
E é o tempo
que chega para todo mundo.
Aquele sonho acabou,
mas vieram outros depois.
Um outro dia,
disse,
serei leoa.
quarta-feira, 7 de março de 2018
Vida, Morte, Renascimento
Outro dia sonhei um sonho real.
Um pesadelo que não sai de mim.
(Ou eu não saio do mundo dos sonhos?)
Suponho
-- mas não sei de nada mesmo --
que sou na verdade um sonho.
Preso no cinza do concreto.
Tão discreto que mal me reconheço real.
Já sonhei ser um peixe.
Mas hoje sou cogumelo.
Quando morrer, o que serei?
Cinzas do mundo em chamas
se espalham sobre meu chapeu.
Me selo com o espectro reluzente do mundo.
Calo minha voz rouca
ante ao som desgastante das máquinas.
Não quero ser máquina.
NÃO QUERO SER MÁQUINA!
Espalho meus esporos pelo mundo
enquanto ainda tenho forças ao anoitecer.
A vida me sufoca, mas sou sonho que não entorta.
Sou linha torta.
Flor que nasce no concreto cinza.
Energia que emana do Sol amarelo.
Cogumelo.
Vida, morte, renascimento.
Lembro disso a todo momento.
Sonho vivo, torto, belo.
Cogumelo.
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Bandazo
Las gracias de la vida:
no las podemos ver más.
En nuestro cuerpo gran herida
nutrida por la maldad
de lo que llamamos humanidad.
Las árboles y el mar,
más que hombres y mujeres,
tienen mucho que hablar.
Solo es necesario escuchar.
Escuchar de verdad.
Aunque la vida sea bela,
la muerte nos rodea.
El sufrimiento de hoy,
el dolor de ayer,
los compartimos con la naturaleza.
Pero no basta oír.
No basta mirar parado.
¡Que vuelvan al suelo!,
porque nadie hará nuestro trabajo
y no hay ayuda en el cielo.
Si no nos gusta lo que vemos,
¡cambiemos!
sexta-feira, 21 de julho de 2017
Satélite
Depois de um tempo dormindo
é bom enfim acordar.
Olhar nos olhos do mundo,
sentir mais do meu desgosto com tudo,
me rebelar.
Difícil mesmo é não se revoltar.
Suportar o dia a dia...
Essa alucinação ainda estou para alcançar.
Tento diariamente respeitar a rua,
mas de dia o mar, de noite a Lua,
sempre vêm me chamar.
Queria que seus poderes fictícios
pudessem nos salvar.
Mas pairo como Bandeira a olhar as coisas em si:
satélite,
água,
fogo,
violência,
desigualdade.
Enforcado de mais valia,
o que me cansa é a fantasia
de que vai tudo muito bem.
Vai tudo mesmo muito mal.
Tudo.
E com um grito jamais contido,
volto para a rua.
Sob satélite ou estrela.
que meus poderes de homem comum
não iludam ser vivo nenhum:
só seguindo junto,
lutando,
incendiando,
revolucionando,
que alguma coisa vai mudar.
Quero ver o mundo diferente.
Talvez com mais cara de gente
-- gente que saiba amar.
Seja na lua nova ou lua cheia,
sentir a liberdade percorrer minha veia,
e, mesmo sem prática,
voltar a sonhar.