sexta-feira, 26 de junho de 2026

Arakoa

 26/06/2026
 
No início, Arakoa vivia sem ninguém por perto. Seu isolamento, no entanto, não trazia solidão. Longe disso: o mundo ao seu redor era vivo, complexo, repleto de animais, plantas, seres vivos de uma maneira geral. Menos humanos. Ainda assim, plantas e bichos guardavam uma distância adequada. Como um acordo não escrito; um contrato social ontológico, nascido da própria natureza. Marcado na carne, escrito com sangue e cravado nas rochas. Mas Arakoa não se importava. Bastava para si sua existência. Vivia para viver! Sou o que sou, porque sou, talvez dissesse. E era, em toda sua magnitude, uma demarcação da matéria; um rugido das entranhas do mundo.
 
Por vezes, o mundo era silencioso. Mas apenas aos ouvidos mal treinados. Ou ao espírito descansado. No fundo, porém, falava sem parar. Antes do verbo veio o adjetivo: vivo, sonoro. Furioso, mas também calmo, pacífico. O respirar das ondas pulsava como artérias. A cada batida, o compasso de um vai-e-vem sem fim. O som da eterna lavagem sempre acompanhado do cheiro característico daquelas águas. Pulsante. As folhas caídas na superfície dançavam ao ritmo incessante da orquestra marítima. Os sopros dominavam as sinfonias, sonatas e réquiens. O mundo tinha voz. 
 
Entre os trotes litúrgicos das feras e os farfalhos profanos das plantas, jazia todo o espectro latente da vida. O equilíbrio sutil das disputas selvagens dominava todo o espaço. A luta por sobrevivência bailava com os apoios mútuos. Mãos, patas, galhos, se entrelaçavam em guerra e paz. Amor e ódio. Sabor e ferida. Cada molécula que ali havia transitava entre formas e estados. Passava de um sistema digestório ao outro, visitando cada aspecto do ser-ou-não-ser. A questão da existência era diluída em suas fases, e os astros acompanhavam cada um delas.
 
Desse olhar cuidadoso nascia a pintura derradeira. As folhas respondiam à luz que recebiam. Apresentavam-se galantes no banquete diário. Vestidas não por terem sido requisitadas, mas por pura vontade. Como se desejassem falar “aqui estamos e a vós saudamos”. Belas como fruto da beleza solar. Fruto este entregue a quem soubesse coletar. Transformando o banquete recebido em novas refeições. Uma verdadeira comunhão eucarística, alegremente recebida por quem se apresentasse.
 
Presas e garras, por outro lado, também entravam na equação. Os cortes, rasgos, mordidas nada mais eram do que recortes da grande serpente que engolia a si mesma e vomitava logo em seguida. Cada átomo perdido se reencontrava alhures e se transformava. Cada casulo finalizado abria espaço para que novas asas pudessem bater. As células, que compunham os tecidos, eram apenas micro-demonstrações de macro-transformações. Cada uma dedicada a seu papel; cada qual firme em seu propósito - seja ele qual fosse. Os inúmeros olhos da noite pareciam saber aonde aquilo tudo iria chegar, mas nunca se dignaram a explicar. Na selva, a educação é um esforço coletivo. Astros, minérios, plantas, animais, fungos, bactérias: cada um carregando parte das respostas, disponíveis a quem soubesse perguntar.
 
E Arakoa permanecia por ali. Espreitando, ruminando rochas e fogo. Perto, porém distante. Ao alcance de membros esticados que se retraíam. Ora em paz fumegante, ora em furor resplandecente, mas sempre ali, ocupando seu lugar de direito; atuando de acordo com seu papel no grande teatro universal. Seu bafo quente falava mais do que qualquer intérprete poderia traduzir. Seu corpo alcançava além dos limites de qualquer olhar.
 
Sentia certa reverência de seres e não-seres ao seu redor. Tamanha potência lhe garantia também prestígio. Não havia nada que permanecesse naquelas terras e mares sem que reverenciasse Arakoa. Sem respeitar sua imensidão. Os cultos afásicos modelavam sua senciência e eram modelados por ela. Sua boca aberta recebia - e engolia - todos que ousassem invadir seu terreno. Seu calor queimava quem tentasse pisar em sua pele. Quem julgasse capaz de enfrentar sua ira sucumbia à eterna escuridão, se tornando parte do que buscava explorar. Meras células anexadas a um novo corpo.
 
Seu temperamento, no entanto, era sensível. Firme, mas nunca cruel. Engolia apenas o que era de sua própria natureza. Invadia apenas o que estava a seu alcance. Dominava somente o que era parte de seu domínio. Não tinha como ser diferente do que era. Não queria ser diferente do que era. Era o que era porque era. E assim permanecia.
 
Nem sempre estava em atividade, no entanto. Arakoa também precisava descansar. De tempos em tempos, tirava para si um momento para hibernar; o sono dos justos era direito de todos. E foi assim que, por eras, sua voz não foi ouvida. Iniciou-se um sono profundo, depois de tanto trabalho, de tanta metamorfose. Era o momento de descansar.
 
*****
 
Por muito tempo, Arakoa permaneceu só. Sua única companhia se mantinha distante. Às vezes mais próxima, mas sempre receosa. Pouca coisa mudou entre seu tempo desperto e seu sonho. O ritmo das ondas continuava; o brilho dos astros permanecia; o ciclo da vida se mantinha. Mas nada permanece igual para sempre. O destino sempre preparava novas surpresas aos vivos.
 
Foi assim que tudo mudou. Como se parte de uma brincadeira fatídica, os humanos vieram não se sabe de onde. Primeiro tímidos, descortinando o palco sob seus pés. Pintando o solo com suas pegadas, teimavam em deixar vestígios de sua passagem pelo caminho. Suas mãos, como cinzeis, esculpiam o mundo à sua volta, talhando seus desejos em troncos e em trancos. Nada seria como antes. Mais uma mudança nas curvas das linhas do tempo.
 
Não se sabe por que vieram. Talvez atraídos por Arakoa, mesmo sem nunca terem sido chamados. Invasivos. Invasores. Hóspedes em uma terra onde ainda não eram bem-vindos. Ocupantes de um solo que não beijava seus pés. Ainda assim, vieram e se alojaram. Tomaram para si um corpo que não era seu. Vestiam sobre sua própria pele o tecido que aquela terra e seus habitantes forneciam. Mastigavam carnes que outrora eram disputadas por outros seres. Regozijavam-se com seus banquetes rubros como vampiros diurnos. Sedentos de uma sede infinda. Vieram e permaneceram.
 
Arakoa, por sua vez, permanecia em seu sonho eterno. Não se sabe se percebeu a chegada dos novos seres, ou se apenas não se importava. Seu ser quente ainda pulsava, bufava, dormia. Sonhava, talvez, com mundos além da compreensão de seres tão pequenos. Vagava pelos reinos do sonhar com asas e caudas flamejantes. Esfriava, condensava suas entranhas em ferro frio, evaporava em nuvens verde-mar e findava em cinzas. Jorrava suas vísceras em terras ultramarinas em uma história-sem-fim - nem começo.
 
No mundo sensível, no entanto, a humanidade se espalhava. Dominando o espaço ao redor, se apresentavam como um cume na pirâmide da vida. Rasgavam, com seus dentes, a carne dos seus então conterrâneos. Lambiam os beiços com o tesão primordial de um predador alfa. Tomavam tudo e todos para si. Deuses em um mundo que existia para lhes servir.
 
E então viram Arakoa. Em seu silêncio majestoso, uma aura seduzia aqueles deuses. O que era aquilo? Que boca grande tinha. Que suspiros potentes, odorosos, fantásticos. Que crosta firme, energizada, solene. Aos poucos se viram cativados, quase hipnotizados. Em transe, entoavam cânticos de força e poder. Riso e maldição. Tinham visões de um futuro celestial como senhores absolutos de toda aquela terra.
 
Começaram a visitar Arakoa, como uma fera no zoológico, presente apenas para que eles pudessem se deleitar. Sua beleza exposta na vitrine. Gratuita, sublime. Desnuda para olhos que não podiam acompanhar seu esplendor. Tomavam suas terras para si, como meros terrenos a serem ocupados. Lotes de terra onde podiam erguer suas residências. Mas esqueciam de um fato importante: aquele zoológico não tinha grades. Aquela fera não podia ser contida, embora adormecida. Afinal, sabiam do seu sonho? Contavam com seu despertar? Sabiam o que o futuro lhes reservava?
 
E, como poderíamos esperar, Arakoa despertou. Sem avisos prévios. Sem comunicação aos senhores-seus-donos. Sem licença. O bocejo da fera não enjaulada espalhou-se pelos ares. Os movimentos de seu corpo recém desperto estremeceram a terra, como o arrepio de um gigante. Os bichos, que ali viviam há gerações, já sabiam o que viria antes mesmo de qualquer sinal, e fugiram. Uma maratona de animais selvagens se iniciou. Uma disputa não pela vitória, mas pela própria vida. Não uns contra os outros, mas cada um contra si mesmo; contra seus limites físicos e mentais. Contra Arakoa. Outros seres vivos e não-vivos aguardavam seu destino de forma estática. Resignados, preparados para a sina que o universo lhes apresentava. Prontos para cumprir seu papel naquele palco. Cientes de seu fim para um novo começo.
 
Arakoa, no entanto, ainda iniciava seu retorno. Ensaiava a demonstração de seu poder, de seu labor. Ao ver-se sob outros seres, no entanto uma fúria nunca antes apresentada se instalou em seu coração. Quem eram aqueles minúsculos bichos, e por que se sentiam no direito de pisar-lhe. Que insetos ousavam sugar seu sangue? Pouco importava. Sua saliva logo tomaria a todos, sem exceção. A verdadeira isonomia jazia em sua bocarra, que tudo consumia. Que tudo consumiria.
 
E consumiu. Devorou. Expandiu-se como nunca antes. Atravessou terrenos ainda inexplorados por suas pernas. Transformou o mundo em fogo e cinzas. Quantos quilômetros teria percorrido? Quais ferramentas seriam capazes de medir tamanha expansão? Seu domínio, então, duplicou. Triplicou, talvez? Multiplicou. Tudo que se pôs em seu caminho foi consumido. Tornou-se parte de seu ser. Apaziguado por sua fúria. Tomado por suas mãos vorazes, suspiro a suspiro, a cada batida de seu coração. Tudo era seu corpo encarnado.
 
Novamente solidão. Seus vizinhos cada vez mais distantes - os que não foram devorados. Mais respeitosos, ou amedrontados, como deveriam ficar diante de Arakoa. Medo, respeito, veneração. Que produzissem suas preces e rituais, pois Arakoa não merecia menos do que isso.
 
Mas Arakoa havia se acostumado com o descanso. Ansiava pelo gozo do sonho, pelo reino onde não passava de apenas mais um transeunte. Mais um minúsculo ser em um mar de ideias, de mundos, visões, ilusões. Sua fúria aos poucos se converteu em paz. Sossego solitário que sucede o trabalho. Tempos incalculáveis se passaram enquanto suas pálpebras se fechavam. Enquanto seu corpo retornava à inanição.
 
E então, eles voltaram. Os bichos, as plantas, e, por fim, os humanos. O terreno que Arakoa tomara para si foi tomado de volta. Seu domínio revertido a zoológico. Seu corpo, a terreno a ser ocupado. Sua fúria não parecia mais demonstrar o que outrora era capaz. O mundo se descortinava como uma saudação ao final de uma apresentação. Seu epílogo, um prólogo de uma história onde seria coadjuvante. Nada seria como antes. 

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